quinta-feira, 14 de março de 2019

Pagu





Patrícia Mulher Galvão:
 Pagu





Coco de Pagu
Raul Boop*

Pagu tem os olhos moles
uns olhos de fazer doer.
Bate-côco quando passa.
Coração pega a bater.

Eh Pagu eh!
Dói porque é bom de fazer doer.

Passa e me puxa com os olhos
provocantissimamente.
Mexe-mexe bamboleia
pra mexer com toda a gente.

Eli Pagu eh!
Dói porque é bom de fazer doer.

Toda a gente fica olhando
o seu corpinho de vai-e-vem
umbilical e molengo
de não-sei-o-que-é-que-tem.

Eh Pagu eh!
Dói porque é bom de fazer doer.

Quero porque te quero
Nas formas do bem-querer.
Querzinho de ficar junto
que é bom de fazer doer.

Eh Pagu eh!
Dói porque é bom de fazer doer.

*Raul Bopp foi um poeta modernista e diplomata brasileiro, tendo participado da Semana de Arte Moderna, ao lado dos amigos Tarsila do Amaral e Oswald de Andrade. Seu livro Cobra Norato é considerado o mais importante do Movimento Antropofágico.


De Patrícia a Pagu – de Pagu a Patrícia


Pagu (1910-1962) foi uma escritora, jornalista, produtora cultural, militante política e brasileira. Foi a primeira mulher brasileira a ser presa política no século XX.
Patrícia Rehder Galvão (1910-1962), conhecida como Pagu, nasceu em São João da Boa Vista, em São Paulo, no dia 9 de junho de 1910. Filha de uma tradicional família paulista se comportava fora dos padrões da época, fumava na rua, falava palavrões e usava roupas pouco convencionais.
Com 15 anos, Pagu já colaborava com o Brás Jornal, com o pseudônimo de Patsy. Em 1928, com dezoito anos, completou o curso de professora na Escola Normal de São Paulo. Nesse mesmo ano, conhece o casal Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral, que havia fundado o Movimento Antropófago, e se integra a esse Movimento. Em 1930, causa um escândalo na sociedade conservadora da época, quando Oswald de Andrade se separa de Tarsila e passa a viver com Pagu, grávida de seu primeiro filho. No mesmo ano nasce Rudá de Andrade.
Três meses após o parto, Pagu viajou pra Buenos Aires, para um festival de poesia, lá conheceu Luís Carlos Prestes e voltou entusiasmada com as ideias marxistas. Na volta filia-se ao Partido Comunista Brasileiro, junto com Oswald.
O apelido “Pagu”, a escritora recebeu do poeta Raul Bopp, que por engano pensou que seu nome fosse Patrícia Goulart, e para ela escreveu o poema “Coco de Pagu”. Em 1931, intensificam-se suas atividades no Partido Comunista. Junto com Oswald fundou o jornal O Homem do Povo, que apoiava o grupo da esquerda revolucionária. Ao participar de uma greve de estivadores em Santos, Pagu foi presa pela polícia do governo de Getúlio Vargas.
Em 1933, Pagu publica Parque Industrial, sob o pseudônimo de Mara Lobo. A obra é uma narrativa urbana sobre a vida das operárias da cidade de São Paulo. Nesse mesmo ano, inicia uma viagem pelo mundo, como correspondente de vários jornais, deixando Oswald e o filho. Visita os Estados Unidos, o Japão, a China e a União Soviética.
Em 1935, filia-se ao partido comunista na França, sendo presa em Paris como comunista estrangeira. Com identidade falsa volta ao Brasil. Separa-se do marido e ao retornar às suas atividades jornalísticas é novamente presa e torturada pelas forças da ditadura, passando cinco anos na cadeia.
Em 1940, ao sair da prisão, Pagu tenta o suicídio, rompe com o Partido Comunista e passa a defender o socialismo e ingressa na redação do jornal A Vanguarda Socialista. Em 1945, casa-se com o jornalista Geraldo Ferraz e dessa união nasce seu segundo filho, Geraldo Galvão Ferraz.
Em 1946, passa a colaborar com diversos jornais, dentre eles, A Manhã, O Jornal, A Noite e o Diário de São Paulo. Com o pseudônimo de “King Shelter”, escreveu contos de suspense para a revista “Detetive”, dirigida por Nelson Rodrigues.
O casal se muda para a cidade de Santos, onde Geraldo é redator do jornal, A Tribuna de Santos. Nas eleições de 1950, Pagu tenta sem sucesso uma vaga para deputada estadual. Em 1952, passa a frequentar a Escola de Arte Dramática de São Paulo. Dedica-se especialmente ao incentivo de grupos amadores de teatro e leva seus espetáculos para Santos. Lidera a campanha para a construção do Teatro Municipal, além de fundar a Associação dos Jornalistas Profissionais. Cria também a União do Teatro Amador de Santos.
Em 1962, Pagu volta a Paris, para o tratamento de um câncer. Sem êxito, tenta novamente o suicídio. Muito doente, publica no jornal A Tribuna, o poema Nothing.
Pagu faleceu em Santos, São Paulo, no dia 12 de dezembro de 1962.





Pagu escritora

 Patrícia Galvão, além de militante política, teve uma grande importância na literatura, no jornalismo e na cultura de modo geral.
Seu primeiro romance, Parque Industrial, foi publicado em 1933, mas teve que assiná-lo com o pseudônimo de Mara Lobo por exigência do Partido Comunista. Ninguém havia feito literatura nesse gênero até então. A obra narra a vida das operárias da cidade de São Paulo e é considerada um dos principais pontos da trajetória da militante.
Como jornalista, Pagu foi corresponde em vários jornais e visitou os Estados Unidos, o Japão, a China e a União Soviética. Em Verdade e Liberdade, evidenciou sua decepção com o comunismo. A poeta também filiou-se ao Partido Comunista da França, onde fez cursos na Sorbonne, em Paris, e foi detida como militante estrangeira, em 1935.
No mesmo período, Patrícia e Oswald se separaram e ela começou a trabalhar no jornal A Plateia. Durante a revolta comunista de 1935, foi presa e torturada mais uma vez.
Dentro da prisão, escreveu em 1939 o romance Microcosmo, cuja primeira parte enterrou em um terreno baldio em São Paulo para proteger da polícia, mas nunca mais a encontrou. Ao sair da cadeia, em 1940, decidiu romper com o partido.
No ano em que foi solta, a escritora casou-se com o jornalista Geraldo Ferraz, com quem teve seu segundo filho, Geraldo Galvão Ferraz, nascido em 1941. Trabalhou, ainda, nos jornais cariocas A Manhã e O Jornal, e nos paulistanos A Noite e Diário de São Paulo. Sob o pseudônimo de King Shelter, escreveu contos de suspense para a revista Detetive, dirigida pelo dramaturgo Nelson Rodrigues.
Legado
Ela foi jornalista, crítica de letras, artes, televisão e teatro, poeta-desenhista, romancista, incentivadora cultural, mulher precursora e revolucionária. Soube também ser dissidente política, quando rompe com o Partido Comunista e volta a ser apenas Patrícia, defendendo um socialismo libertário, pacífico, democrático e espiritualista”, ressaltou a pesquisadora Lúcia Maria.
Em 1954, Pagu se mudou para Santos (SP), onde atuou como crítica literária, teatral e de televisão no jornal A Tribuna. Na cidade, liderou a campanha para a construção do Teatro Municipal, além de fundar a Associação dos Jornalistas Profissionais e a União do Teatro Amador de Santos.
A escritora voltou a Paris em setembro de 1962 para ser operada em decorrência de um câncer, mas a cirurgia não obteve sucesso e ela tentou suicídio. Já muito doente, viveu até dezembro do mesmo ano. Seu último texto, o poema Nothing [...] foi publicado em A Tribuna, na véspera de sua morte.
A força e importância de Pagu foram eternizadas em uma música que recebe o seu nome, interpretada por Rita Lee e Zélia Duncan:
Nem toda feiticeira é corcunda
Nem toda brasileira é bunda
Meu peito não é de silicone
Sou mais macho que muito homem
Sou rainha do meu tanque
Sou Pagu indignada no palanque [...]”.



Obras (de própria autoria e de outros)

·                     Parque Industrial – Edição particular – 1933
·                     A Famosa Revista – Americ-Edit – 1945
·                     Verdade e Liberdade – Edição da autora – 1950
·                     Safra Macabra – José Olympio Editora – 1998
·                     Croquis de Pagu (org. Lúcia Maria Teixeira Furlani) – Editora Unisanta – 2004
·                     Paixão PaguUma autobiografia precoce de Patrícia Galvão – Ed.  Agir –  2005  


  


Pagu poetisa


Natureza Morta


Os livros são dorsos de estantes distantes quebradas.
Estou dependurada na parede feita um quadro.
Ninguém me segurou pelos cabelos.
Puseram um prego em meu coração para que eu não me mova
Espetaram, hein? a ave na parede
Mas conservaram os meus olhos
É verdade que eles estão parados.
Como os meus dedos, na mesma frase.
Espicharam-se em coágulos azuis.
Que monótono o mar!
Os meus pés não dão mais um passo.
O meu sangue chorando
As crianças gritando,
Os homens morrendo
O tempo andando
As luzes fulgindo,
As casas subindo,
O dinheiro circulando,
O dinheiro caindo.
Os namorados passando, passeando,
O lixo aumentando,
Que monótono o mar!
Procurei acender de novo o cigarro.
Por que o poeta não morre?
Por que o coração engorda?
Por que as crianças crescem?
Por que este mar idiota não cobre o telhado das casas?
Por que existem telhados e avenidas?
Por que se escrevem cartas e existe o jornal?
Que monótono o mar!
Estou espichada na tela como um monte de frutas apodrecendo.
Se eu ainda tivesse unhas
Enterraria os meus dedos nesse espaço branco
Vertem os meus olhos uma fumaça salgada
Este mar, este mar não escorre por minhas faces.
Estou com tanto frio, e não tenho ninguém ...
Nem a presença dos corvos.


Nothing

Nada nada nada
Nada mais do que nada
Porque vocês querem que exista apenas o nada
Pois só existe o nada
Um para-brisa partido uma perna quebrada
O nada
Fisionomias massacradas
Tipoias em meus amigos
Portas arrombadas
Abertas para o nada
Um choro de criança
Uma lágrima de mulher à-toa
Que quer dizer nada
Um quarto meio escuro
Com um abajur quebrado
Meninas que dançavam
Que conversavam
Nada
Um copo de conhaque
Um teatro
Um precipício
Talvez o precipício queira dizer nada
Uma carteirinha de travel’s check
Uma partida for two nada
Trouxeram-me camélias brancas e vermelhas
Uma linda criança sorriu-me quando eu a abraçava
Um cão rosnava na minha estrada
Um papagaio falava coisas tão engraçadas
Pastorinhas entraram em meu caminho
Num samba morenamente cadenciado
Abri o meu abraço aos amigos de sempre
Poetas compareceram
Alguns escritores
Gente de teatro
Birutas no aeroporto
E nada


Canal

Nada mais sou que um canal
Seria verde se fosse o caso
Mas estão mortas todas as esperanças
Sou um canal
Sabem vocês o que é ser um canal?
Apenas um canal?
Evidentemente um canal tem as suas nervuras
As suas nebulosidades
As suas algas
Nereidazinhas verdes, às vezes amarelas
Mas por favor
Não pensem que estou pretendendo falar
Em bandeiras
Isso não
Gosto de bandeiras alastradas ao vento
Bandeiras de navio
As ruas são as mesmas.
O asfalto com os mesmos buracos,
Os inferninhos acesos,
O que está acontecendo?
É verdade que está ventando noroeste,
Há garotos nos bares
Há, não sei mais o que há.
Digamos que seja a lua nova
Que seja esta plantinha voacejando na minha frente.
Lembranças dos meus amigos que morreram
Lembranças de todas as coisas ocorridas
Há coisas no ar…
Digamos que seja a lua nova
Iluminando o canal
Seria verde se fosse o caso
Mas estão mortas todas as esperanças
Sou um canal.


Fósforos de segurança

Fósforos de segurança
Indústrias tais
Fatais.
Isso veio hoje numa pequena caixa
Que achei demasiado cretina
Porque além de toda essa história
De São Paulo – Brasil
Dava indicações do nome da fábrica.
Que eu não vou dizer
Porque afinal o meu mister não é dizer
Nome de indústria
Que não gosto nem um pouquinho
De publicidade
A não ser que
Isso tudo venha com um nome de família
Instituição abalizada
Que atrapalha a vida de quem nada quer saber
Com ela.
Ela, ela, ela.
Hoje me falaram em virtude
Tudo muito rito, muito rígido
Com coisinhas assim mais ou menos
Sentimentais.
Tranças faziam balanças
Nas grandes trepadeiras
Estávamos todos por conta de.
Nascinaturos espalhavam moedinhas
Evidentemente estavam brincando
Pois evidentemente, nos tempos atuais
Quem espalha moedas
Ou é louco, ou é porque
Está brincando mesmo.
O que irritou foi o porquê.


Um peixe

Um pedaço de trapo que fosse
Atirado numa estrada
Em que todos pisam
Um pouco de brisa
Uma gota de chuva
Uma lágrima
Um pedaço de livro
Uma letra ou um número
Um nada, pelo menos
Desesperadamente nada.




Movimento
Antropofágico




Abaporu (1928), Tarsila do Amaral

Daniela Diana (professora licenciada em Letras)

O Movimento Antropofágico foi uma corrente de vanguarda que marcou a primeira fase modernista no Brasil. Liderado por Oswald de Andrade (1890-1954) e Tarsila do Amaral (1886-1973), a finalidade principal era de estruturar uma cultura de caráter nacional.

Características do Movimento
A divulgação do movimento era realizada na Revista de Antropofagia, publicada em São Paulo. Já o primeiro número trazia o Manifesto Antropofágico. Ela foi editada em duas fases:
·         entre maio de 1928 e fevereiro de 1929;
·         entre 17 de março a 1º de agosto de 1929.


Manifesto Antropofágico
O Manifesto Antropofágico ou Manifesto Antropófago, que deu origem ao movimento, foi publicado por Oswald de Andrade em 1º de maio de 1928, na Revista de Antropofagia:
"Só a Antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente. Única lei do mundo. Expressão mascarada de todos os individualismos, de todos os coletivismos. De todas as religiões. De todos os tratados de paz. Tupi, or not tupi that is the question.’” Contra todas as catequeses. E contra a mãe dos Gracos. Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago." (trecho do Manifesto)
O termo antropofágico foi utilizado como associação ao ato de ruminar, assimilar e deglutir. A ideia, portanto, era de transfigurar a cultura, principalmente a europeia, conferindo assim, o caráter nacional.

Note que esse é o período mais radical do Modernismo e que também foi influenciado por outros grupos:
·         Pau-Brasil (1924-1925);
·         Verde-amarelismo ou Escola da Anta (1916-1929);
·         Manifesto Regionalista (1928-1929).

Influências
A ideia do movimento teve início na Europa, quando Oswald de Andrade assiste ao Manifesto Futurista, do italiano Felippo Tomaso Marinetti.
Oswald estava em Paris quando Marinetti anuncia o compromisso da literatura com a nova civilização técnica, marcada, sobretudo, pelo combate ao academismo.
Assim, a permanência na Europa influenciou diretamente Oswald no período marcado pela decadência do Parnasianismo e do Simbolismo.
Os ideais modernistas ganham força e juntamente com Menotti del Picchia (1892-1988) e Mário de Andrade (1893-1945) eles passam a escrever para os jornais brasileiros. Apoiados nos ideais do Futurismo, eles rompem com o tradicionalismo e o conservadorismo.
Em resumo, estavam prontos os ingredientes para a Semana de Arte Moderna, que ocorreu em 1922, na cidade de São Paulo. Note que esse evento ofereceu uma nova roupagem para a identidade cultural brasileira e influenciou a arte continuamente.

Curiosidade
Além da literatura, as ideias do movimento antropofágico influenciaram também as artes plásticas. Merecem destaques, a pintora Anita Malfatti (1889-1964) e o escultor Victor Brecheret (1894-1955).

Fonte: https://www.todamateria.com.br/movimento-antropofagico/.

  
Um acontecimento pitoresco



“Correspondente de vários jornais, Pagu visitou os Estados Unidos, o Japão e a China. Entrevistou Sigmund Freud e assistiu à coroação de Pu-Yi, o último imperador chinês. Foi por intermédio dele que Pagu conseguiu sementes de soja, enviadas ao Brasil e introduzidas na economia agrícola brasileira [...].”
 Fonte: https://educacao.uol.com.br/biografias/patricia-galvao-pagu.htm.



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